quinta-feira, julho 17, 2008

O que não me ensinaram sobre a lei da semeadura e colheita: a subversão da lei da graça

Existe lei de causa e efeito. Se eu pulo de um prédio no chão, a gravidade me fará experimentar o seu efeito, e eu me esbagaçarei no chão. E assim por diante... O universo físico é regido por leis de causa e efeito. E o mundo espiritual também. Ou seja: assim como no universo existem leis de causa e efeito - como a gravidade, por exemplo-, assim também acontece no universo do espírito, posto que está dito: "A alma que pecar, essa morrerá". Por isso, ficar sob a Lei no mundo espiritual, é ficar sob a lei de causa e efeito da Lei. Ora, isto nos deixa num lugar onde o efeito de nosso pecado é a morte. Assim, andando na Lei se anda sob a lei de causa e efeito, posto que a Lei é feita de causas e efeitos. No mundo das leis humanas, se houvesse meios de tornar uma lei algo que tivesse um "efeito" que fosse intrínseco em relação à causa da lei, ter-se-ia o fato de que a cada lei que fosse transgredida, o infrator teria o efeito da infração imediatamente como conseqüência e punição. Todavia, não é assim, posto que a transgressão de uma lei humana só é punida quando o infrator é flagrado ou descoberto. Quando é, todavia, experimenta os efeitos de sua transgressão na forma de punição. Existe, todavia, o seguinte fato: a Graça não invalida as leis universais de causa e efeito – crer na Graça não autoriza ninguém a pular do Pináculo do Templo-; e, nem tampouco, dá isenção para que a pessoa transgrida as leis humanas. Todavia, ela dá uma outra certeza; e que é a seguinte: quem crê na Graça de Deus, e se arrepende de seus pecados, esse, mesmo julgado e condenado pelos homens - à semelhança do ladrão arrependido ao lado de Jesus-, verá que a lei dos homens e até a Lei de Deus - pelas quais ele é julgado - perdem seu poder diante de Deus, posto que ante a face de Deus o que justifica o homem é a fé, mesmo que seja num "momento", em contraste com uma longa existência de transgressão. A narrativa do Ladrão que morria ao lado da Cruz de Jesus explica a diferença entre a operação das leis dos homens, em contraste com a Lei da Graça. Assim, a Lei perde seu poder de gerar "efeito" para a condenação diante de Deus por causa de Cristo e de Sua Cruz. Mas a Graça não suspende a Lei da Gravidade, e, nem tampouco faz com que tragédias não venham à casa de Jó. A Teologia Moral de Causa e Efeito é o que se percebe que havia na mente dos "amigos de Jó". Isto porque eles pegaram a exatidão das leis que regem o mundo físico, e, de posse delas, imaginaram que com as mesmas "causalidades" poderiam entender a existência de um homem na terra e sua relação com Deus, sendo que naquele caso a interpretação deles era que se Jó estava sofrendo e recebendo calamidade sobre calamidade, então, elas deveriam ser o "efeito" de algo cuja causa era pecado na deliberado na vida de Jó. Essa é a Teologia Moral de Causa e Efeito.

O texto de Gálatas que você mencionou, inicia com um "de Deus não se zomba". Assim, quem recebe o que semeia é aquele que zomba de Deus. Afinal, quem zombará de Deus e não receberá segundo as suas próprias obras? Quem zomba de Deus o faz por duas razões: ou porque 'brinca de transgredir' a sua própria consciência - semeando corrupção deliberada-; ou porque prefere a presunção da auto-justificação diante de Deus, e que vem da Moral e da Lei - num show de justiças próprias e vanglória-, e, portanto, coloca-se outra vez sob a Lei; pois, pela Lei o homem justifica a si próprio diante de Deus obedecendo ininterruptamente toda a Lei, o tempo todo, sem jamais transgredir em um único mandamento. Ora, isto é impossível aos humanos; posto que se ao menos um de nós pudesse assim realizar, "ele" seria aquele que deveria se oferecer para morrer por todos nós. Ora, a Lei é de causa e efeito; e, portanto, determina que a alma que viver em total obediência a ela, esse terá vida; e que a alma que a transgredir, essa morrerá. E, como todos pecaram e carecem da glória de Deus, pela Lei não serão justificados, pois o "pecado opera em seus membros". Por essa razão, todos os buscam se justificar mediante a Lei, se nela perseveram como caminho de auto-salvação, põem-se fora do âmbito justificador da Graça. Pois a Graça só justifica a quem crê na Suficiência da Cruz para suspender todas as leis espirituais e cobrir o homem com a virtude de Cristo. A Graça, portanto, é um Supremo Arbítrio de Deus contra as leis. Visto que em Jesus, Deus determinou que o sacrifício do Único Justo fosse o pagamento pela dívida de todos os transgressores. Assim, em Cristo, a Lei de Causa e Efeito é vencida pela Lei da Graça, onde a Causa é Cristo e Sua Cruz, e o efeito é a nossa justificação. Ora, o viver na Graça não gera concessão para a libertinagem e nem para a transgressão deliberada da Lei. Ao contrario, como a Graça só é efetiva mediante a fé, e como a fé só é eficaz se for fruto de um entendimento espiritual; desse modo, quem se põe sob a Graça, esse não terá prazer na transgressão, posto que se pôs sob a Lei do Amor. Sendo Graça um favor imerecido, ela gera na consciência um sentido de gratidão e amor para com Deus. E é justamente essa gratidão amorosa e esse amor grato, o poder que nos "constrange" a não vivermos deliberadamente em transgressão. Pois onde há a deliberação da transgressão, aí também não há amor ou Graça. Assim, a Graça quebra as leis de causa e efeito para a justificação, mas se torna a causa de que toda transgressão deliberada seja também aquilo que nos remete de volta à Lei. É possível viver na Graça e não pecar? Ora, é claro que não! O pecado está em operação em nós de modos muito sutis, e, também, piedosos. No entanto, é possível caminhar no crescimento da Consciência conforme o Evangelho, e, assim, desistir da deliberação do pecado, bem como crescer para deixar de lado os pecados que se tornam vícios da alma. Pecar-se-á, todavia, outros pecados, os quais, sob a Graça, não nos afastarão do beneficio do perdão, à menos que deliberadamente nos ponhamos num estado consciente de negação da fé, caindo da Graça, conforme Hebreus.


Rev. Caio Fábio



O amor prefere a luz das velas.
Talvez seja isso, tudo que desejamos
de uma pessoa amada: Que ela seja
luz suave que nos ajude
a suportar o terror da noite.
Sob a luz do amor que ilumina
modesta e pacientemente,
o escuro já não assusta
tanto.
Rubem Alves


Foi Jesus quem disse que temos o poder de ser luz para os outros.




quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Olhando Para Cima - Parte II


O avanço de um povo pode ser praticamente determinado pelo seu interesse em observar as estrelas. Cada grande civilização do passado - inca, mongol, chinesa, egípcia, grega, renascentista européia - fez importantes descobertas no campo da astronomia. Uma ironia permeia a história da humanidade: cada civilização adquire a capacidade de medir sua própria insignificância; depois, deixa de reconhecer esse fato e desaparece.

E nós, lançadores de naves espaciais Viking e Apollo, fabricantes do observatório espacial Hubble e dos radiotelescópios Very Large Array espalhados ao longo de 60 quilômetros no deserto do Novo México? Será que as nossas realizações nos tornam mais ou menos humildes? Mais ou menos ilustres?

Quase na mesma ocasião em que li Chet Raymo, fui assitir a um filme produzido pela tripulação de uma nave espacial com uma câmera Omnimax de formato especial. O que mais me impressionou foram as tempestades de raios. Vistos do espaço, os relâmpagos flamejavam em um padrão aleatório de beleza, iluminando, a cada descarga, o tapete de nuvens que se estendia por várias centenas de quilômetros. O raio chameja, espalha-se por determinada extensão, brilha e depois esmaece. E, o que é mais curioso, sem produzir nenhum som.

Fiquei impressionado com a enorme diferença que a perspectiva faz. Na Terra, famílias se aconchegavam dentro de casa, carros se escondiam sob os viadutos das auto-estradas, animais se abrigavam na floresta, crianças choravam á noite. Transformadores cintilavam, lagos transbordavam, cães ganiam. Mas, do espaço, víamos apenas um suave e agradável brilho, aumentando e diminuindo, uma onda de luz.

Chet Raymo, que dorme de dia e contempla o espaço á noite, vive em constante questionamento em decorrência da sua qualidade de observador do universo. Ele descreve como as galáxias que se afastam indicam um BIG BANG da criação, no qual toda a matéria o universo adquiriu existência a partir de uma gigantesca explosão que durou apenas um segundo. Ele reconhece a inimaginável probabilidade de que qualquer bem possa advir de uma explosão causal desse tipo.

"Se um segundo após o BIG BANG o coeficiente da densidade relativa do universo em relação ao seu coeficiente de dilatação diferisse à razão de uma parte em 10.15 (1 seguido de 15 zeros) de seu valor presumido, o universo desmoronaria rapidamente sobre si mesmo ou se dilataria com tanta rapidez que as estrelas e galáxias não teriam se condensado a partir da matéria original... Se todos os grãos de areia de todas as praias da Terra fossem universos compatíveis com as leias da física como as conhecemos - e somente um desses grãos fosse um universo propício à existência de vida inteligente, esse único grão de areia seria o universo em que habitamos."

Depois de ler Chet Raymo, voltei-me para uma passagem que eu marcara há muito tempo no extraordinário livro Alone (Só), o depoimento do Comandante Richard Byrd sobre uma solitária permanência de 6 meses na Antártida, próximo ao Pólo Sul. Byrd estava quase sempre olhando para cima; o restante da paisagem era completamente branco. Encontrando-se mais ao sul do planeta do que qualquer outro ser humano, ele testemunhou fenômenos ocorridos no céu - como a refração, que lançava faixas de cores que atravessavam o núcleo do Sol - fora do campo de visão de qualquer outra pessoa na Terra.

Após uma caminhada em uma tarde gelada (a temperatura era de 89°C negativos na estação da noite perpétua), Byrd se sentou e escreveu o que havia visto em suas observações de estrelas.

"Eu estava convicto de que o ritmo era demasiadamente cadenciado, harmônico e perfeito para ser produto de mero acaso - e que, portanto, devia haver uma finalidade no todo e que o homem fazia parte desse todo, não de uma ramificação acidental. Era uma sensação que transcendia a razão; que tocava o âmago do desespero humano e não encontrava fundamento. O universo era um cosmo, não um caos; o homem era uma parte tão legítima desse cosmo quanto o dia e a noite."

É necessário um grande esforço, e uma fé considerável, para manter O Grande Quadro em mente. De um lado, é algo que me faz sentir insignificante; de outro, eternamente significante. Se o Deus que projetou a criação com tamanha precisão professa um pouquinho de interesse pelo que acontece neste minúsculo planeta, o mínimo que posso fazer é afastar-me com mais freqüência dos postes de iluminação de rua e olhar para cima.

Olhando Para Cima - Parte I



(Trecho do livro "Encontrando Deus nos Lugares Mais Inesperados - Philip Yancey)


Tenho pensado no Universo ultimamente. No Universo como um todo. Depois de ler um pouco da elegia em prosa do astrônomo Chet Raymo (Starry Nights, The Soul of the Night [Noites Estreladas, A Alma da Noite]), olho para cima e espicho o pescoço em ângulos esquisitos tentando divisar algo no céu vazio e escuro. Morando em Chicago, no entanto, consegui, no máximo, ver a Lua, Vênus e a trajetória de vôo seguida pelos jatos que pousam em O´Hare Field, e devo acreditar na palavra de Raymo no tocante do que existe além disso.

Os conhecimentos sobre o universo são de pouca valia para a auto-estima terrena. O nosso Sol, suficientemente poderoso para transformar pele branca em bronze e atrair oxigênio de cada planta, ocupa um lugar modesto pelos padrões galácticos. Se a gigantesca estrela Antares fosse posicionada onde nosso Sol se encontra - a 93 milhões de milhas de distância - , a Terra estaria dentro dela! E o nosso Sol e Antares representam apenas dois dos 500 bilhões de astros e estrelas que circulam pelo vasto espaço da Via Láctea. Segurando uma moedinha com o braço esticado, encubriríamos 15 milhões de estrelas, se nossa visão tivesse esse poder de alcance.

Do nosso hemisfério, somente outra galáxia, Andrômeda, tem tamanho e proximidade suficientes (meros dois milhões de anos-luz de distância) para ser vista a olho nu. A estrela apareceu nos gráficos estelares muito antes da invenção do telescópio, e até recentemente ninguém sabia que a pequena mancha de luz marcava a presença de uma galáxia duas vezes maior que a Via Láctea e sede de meio trilhão de estrelas, ou que esses vizinhos mais próximos são apenas duas das 100 bilhões de galáxias igualmente repletas de estrelas que existem.

Uma das razões do céu permanecer escuro á noite, apesar da presença de tantos corpos luminosos, é que todas as galáxias se afastam uma das outras com espantosa velocidade. Amanhã, algumas galáxias estarão cerca de 50 milhões de quilômetros mais distantes de nós. No tempo necessário para digitar essa frase, elas terão se afastado mais 3.100 quilômetros.

Contemplei a Via Láctea em plena glória certa vez, quando visitava um acampamento de refugiados na Somália, logo abaixo do equador. Nossa galáxia estendia-se pela abóboda escura como uma auto-estrada pavimentada de pó de diamante. Desde aquela noite em que me deitei de costas na areia quente longe do poste de luz mais próximo, o céu nunca mais pareceu vazio e a Terra grande demais.

Eu havia passado o dia inteiro entrevistando os que trabalhavam pela rendição questionando sobre a megacatástrofe do momento. Curdistão, Ruanda, Sudão e Etiópia - os nomes dos lugares mudam, mas o espetáculo do sofrimento guarda a mesma tenebrosa semelhança: mães com seios murchos e sem leite, bebês chorando e morrendo, pais á procura de lenha em terrenos sem árvores.

Depois de três dias ouvindo histórias de miséria humana, eu não conseguia erguer os olhos e ver além daquele acampamento em um canto lúgubre de um país obscuro situado no Chifre da África. Até ver a Via Láctea, que, de repente, me fez lembrar de que o momento presente não abrangia a vida inteira. A história continuaria. Tribos, governos e todas as civilizações podem ascender e decair deixando um rastro de catástrofes em seu caminho, mas não ousei limitar meu campo de visão às cenas de sofrimento que se desenrolavam à minha volta. Eu precisava olhar pra cima, para as estrelas.

"Poderás tu atar as cadeias do Sete-estrelo? Poderás tu soltar os laços do Órion? Poderás tu fazer aparecer os signos do Zodíaco ou guiar a Ursa com seus filhos? Sabes tu as ordenanças dos céus? Pode estabelecer a influência de Deus sobre a Terra?" Essas perguntas Deus fez a um homem chamado Jó, que, obcecado por seu grande sofrimento, havia limitado sua visão às fronteiras de sua pele, que coçava. Impressionante é a advertência de Deus que pareceu ajudar Jó. Sua pele ainda coçava, mas Jó passou a ter uma visão de outras questões. Deus precisava cuidar de um Universo formado por 100 bilhões de galáxias.

Na minha opinião, o discurso de Deus no livro de Jó aparenta ter um certo tom de rispidez. Mas talvez essa seja a sua mensagem mais importante: o Senhor do universo tem o direito de ser ríspido quando atacado por um minúsculo ser humano, apesar dos méritos de sua queixa. Nós, descendentes de Jó, não ousemos perder de vista O Grande Quadro, a visão mais clara desfrutada em noites claras sem luar.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Vidas de formigas? Canções de cigarras? - uma respota


O texto "Vidas de formigas? Canções de cigarras? " se encontra no link abaixo:

http://jackyblessing.blogspot.com/2007/01/as-formigas-encontram-se-em-muitas.html

Não se pode usar como refutação algo que concorde com o que se pretende refutar. – Logo compreendi isso ao ler esta apologia a formiga, ou seria uma defesa pessoal?

Entramos em concórdia já quando visualizamos como inútil a idéia de que ser formiga ou ser cigarra, enquanto seres vivos e reais, é um absurdo. Portanto sem delongas sobre isso. Qualquer formiga acharia um absurdo a idéia de ser uma cigarra, e vice-versa.

Ora, quando encaramos a questão ser formiga e ser cigarra enquadrada nas fábulas – ou seja, valorizada em certos aspectos e desvalorizada em outros, como é típico das metáforas, desnecessário é concluir que o ponto de vista define a maneira como decidiremos o que é melhor, ser cigarra ou ser formiga.

A partir dessa compreensão, e de uma reavaliação dos textos, vi que não havia refutação a minha apologia (Melhor seria chamar minha posição de “sugestão”) às cigarras. Até porque o aspecto, e isso ficou bem claro, da cigarra que foi valorizado foi justamente isso: um aspecto. O mesmo em relação à formiga. Vejamos.

A sutileza me fez usar termos como “lado cigarra”, “Alma de cigarra, ‘arquétipo”, para tornar claro que o que estava sendo tratado era a vida humana. E metaforicamente a “vontade irrefreável de cantarrevestiu-se, não inapropriadamente, de cigarra. Tratada como “uma identidade adormecida” que precisa ser despertada.

Não se pode negar a comparação positiva simplesmente apresentando comparações negativas de outros aspectos.

“Viver de uma ou outra maneira implica em sermos felizes?” Sim. Porém é preciso tratar sobre os mesmos aspectos para que haja possibilidade de análise objetiva. Valorizar outros aspectos, repito, é mudar o foco da análise.

Tente responder a essa pergunta tendo em vista a forma de vida humana, representada metaforicamente pela formiga e pela cigarra.

Bem dissestes sobre os também plausíveis aspectos negativos da cigarra e positivos da formiga. Seria bem aplicáveis a certas características humanas – como é feito na Bíblia, por exemplo. Nisso não há discordância nenhuma e utilizo-me deste outro exemplo para continuar defendendo a idéia de que em momento algum houve uma necessidade de refutação. Para fundamentar o que digo citarei alguns trechos.

Por exemplo, admiti algum “aspecto negativo da cigarra da historinha”. Aliás, bem retratado no seu texto. Juntos concordamos que, nas suas palavras, “Não sobreviveríamos sendo apenas "cigarras"”. Por isso que afirmei que o nosso lado cigarra devia diferir da cigarra da nossa história. Já que esta foge, enquanto a sugestão era algo muito parecido com o que acontece a um religioso: O religioso não foge, ele ouve sons diferentes. E isso ritmifica a vida. Por isso que a lição de moral de Esopo apenas corrobora com essa visão.

E, enquanto ao lado bom da formiga, esse bem mais retratado por você, também não há discordância. Juntos concluímos que, forçosamente mais parecidos com as formigas, devíamos despertar o nosso lado cigarra adormecido. Como afirmei: “Já pensou se desse a louca na formiga e ela resolvesse ouvir músicas?”. No que concordas: Penso que podemos ser "formigas cantoras"...

A cigarra posta sob crítica, bem como a formiga posta sobre os louvores é igualmente encarada.


***

“trabalhar para ter descanso nos "invernos"” – Essa não é a formiga que, em meus textos, critiquei.

“Não sobreviveríamos sendo apenas "cigarras", precisaríamos de um empréstimo do formigueiro para suportarmos os "invernos" da vida...”

E isso, mais abaixo, é admitido recípocro. E toda essa dependência nos leva a encararmos as cigarras e formigas não como naturezas diferentes, mas aspectos diferentes de uma mesma natureza.

“Viver é mais que sobreviver.” Oxalá as formigas que incessantemente trabalham entendessem isso. –Esse é o porquê dos textos “cigarras”. A coisa real que é combatida. E até mesmo a diferença dos pensamentos capitalistas e comunistas sobre o trabalho e a vida.

Tanto na versão boa, quanto na versão má, a cigarra tem as suas virtudes devidamente reconhecidas. Embora pessoalmente acho que na versão má elas ressaltem mais.

“defeito é pequeno em face das virtudes, pois é trabalhadeira, diligente e precavida.”

Engraçado. Não tive essa mesma percepção. Na verdade nem muito se falou sobre suas virtudes. Pode-se concluir isso, é claro, através da experiência. Mas não das fábulas (ou pelo menos não dos trechos apresentados).

Sobre ela, na versão má, o que sobressai é a forma como é vítima de sua honra. É apresentada fria e calculista. A sub-vida a tornou assim. É cheia de justiça vingativa expressada no seu falso sermão moral, na verdade, uma necessidade de reconhecimento. O que ela dizia com: não trabalhou, né? Era: eu trabalhei.

Ela devia ser, em todas as versões – não só na boa, grata:

“- Que fazias no tempo de calor? - perguntou-lhe.

- Eu cantava noite e dia a todos que apareciam. - respondeu a cigarra.”

A cigarra alegrava os seus dias.

Ademais, com um pouco mais de tempo, refutamos a idéia de que tem tantas virtudes assim até mesmo na experiência.

Segundo a Wikipédia elas:

Formam níveis de sociedade “eusocialidade”, que deveria significar Eu-sociedade, a sociedade dos eus, a sociedade dos iguais. Elas são intolerantes (No livro Maravilhosa Graça, Yancey cita um exemplo a esse respeito). Não toleram o diferente.

Além de intolerantes são anti-democráticas, e sua estrutura têm cunho altamente capitalista-desigual.

“As sociedades das formigas são organizadas por divisão de tarefas e a cada tipo de tarefa corresponde um tipo de indivíduos diferente, muitas vezes chamados castas.”

“...depois da fecundação, os machos não são autorizados a entrar no formigueiro e geralmente morrem rapidamente”.

“As restantes funções – procura de alimentos, construção e manutenção do formigueiro e sua defesa – são realizadas por fêmeas estéreis, as obreiras.”

http://pt.wikipedia.org/wiki/Formiga

“Tendo a cigarra cantado todo o estio, achou-se em apuros com a entrada do inverno. Não possuía nem um pedacinho de mosca, nem um vermezinho para se alimentar.”

A idéia da cigarra preguiçosa e sucumbido por não cuidar de suas necessidades primárias é, na sua base, inapropriada.

Nada de moscas e manufaturados: “Possuem um "bico" comprido para se alimentar da seiva de árvores e plantas onde normalmente vivem.”

Elas penas fazem como disse o bom Mestre: observam o modo como o Criador vem, fielmente, sustentando a todos, e confiam.

Têm uma vida até longa (E não é com a ajuda da formiga). Se fossem preguiçosa como isso seria possível? “A maioria das espécies do Brasil tem um desenvolvimento completo ao redor de 17 anos....” (Quanto tempo vive uma formiga?).

Ainda insisto na idéia de que devemos deixar um pouco a foice e a vassoura de lado e rolarmos na grama com os nosso filhos.