domingo, março 15, 2009

Jesus e a sua volta

Contam que, certa vez, perguntaram a Karl Barth se ele acreditava na segunda vinda de Jesus Cristo. Sua resposta foi no mínimo intrigante. Barth teria dito que acreditava em todas as vindas de Jesus, e não apenas na segunda. Na verdade, disse o célebre teólogo alemão, Jesus Cristo veio pela primeira vez na encarnação e, depois, pela segunda vez na ressurreição, e veio outra vez no Pentecoste, uma quarta vez na Igreja, que é o seu corpo, e, além dessas, Jesus Cristo vem toda vez que um pecador se arrepende e se reconcilia pessoalmente com Ele. Ao final, Barth teria dito que acreditava, sim, que Jesus Cristo viria consumar o reino de Deus no “fim da história”, mas essa seria a quinta ou sexta vinda de Jesus.

(...)

Aguardar a vinda de Jesus no fim dos tempos pode se tornar uma distração que nos impede a relação com Ele aqui e agora; negligenciar a vinda de Jesus no fim da história equivale a esvaziar a fé cristã de sua utopia do reino eterno de Deus e negar a promessa futura do novo céu e nova terra. Ambos os equívocos são perigosos e perniciosos à militância e esperança cristãs.

Ed Rene Kivitz

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A escuridão me basta

Tu Não És Como O Tenho Imaginado

Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.
Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.

Thomas Merton

segunda-feira, agosto 18, 2008

Santo Agostinho

Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, Tarde vos amei !

Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora procurando-vos !

Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes.

Estáveis comigo, e eu não estava convosco!

Retinha-me longe de Vós aquilo que não existia se não existisse em Vós.

Porém, chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilantes, e logo afugentastes a minha cegueira!

Exalastes perfume: Respirei-o suspirando por Vós.

Tocastes-me e ardi no desejo de Vossa paz!

Só na grandeza de Vossa misericórdia coloco toda a minha esperança.

Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes.

quinta-feira, julho 17, 2008

O que não me ensinaram sobre a lei da semeadura e colheita: a subversão da lei da graça

Existe lei de causa e efeito. Se eu pulo de um prédio no chão, a gravidade me fará experimentar o seu efeito, e eu me esbagaçarei no chão. E assim por diante... O universo físico é regido por leis de causa e efeito. E o mundo espiritual também. Ou seja: assim como no universo existem leis de causa e efeito - como a gravidade, por exemplo-, assim também acontece no universo do espírito, posto que está dito: "A alma que pecar, essa morrerá". Por isso, ficar sob a Lei no mundo espiritual, é ficar sob a lei de causa e efeito da Lei. Ora, isto nos deixa num lugar onde o efeito de nosso pecado é a morte. Assim, andando na Lei se anda sob a lei de causa e efeito, posto que a Lei é feita de causas e efeitos. No mundo das leis humanas, se houvesse meios de tornar uma lei algo que tivesse um "efeito" que fosse intrínseco em relação à causa da lei, ter-se-ia o fato de que a cada lei que fosse transgredida, o infrator teria o efeito da infração imediatamente como conseqüência e punição. Todavia, não é assim, posto que a transgressão de uma lei humana só é punida quando o infrator é flagrado ou descoberto. Quando é, todavia, experimenta os efeitos de sua transgressão na forma de punição. Existe, todavia, o seguinte fato: a Graça não invalida as leis universais de causa e efeito – crer na Graça não autoriza ninguém a pular do Pináculo do Templo-; e, nem tampouco, dá isenção para que a pessoa transgrida as leis humanas. Todavia, ela dá uma outra certeza; e que é a seguinte: quem crê na Graça de Deus, e se arrepende de seus pecados, esse, mesmo julgado e condenado pelos homens - à semelhança do ladrão arrependido ao lado de Jesus-, verá que a lei dos homens e até a Lei de Deus - pelas quais ele é julgado - perdem seu poder diante de Deus, posto que ante a face de Deus o que justifica o homem é a fé, mesmo que seja num "momento", em contraste com uma longa existência de transgressão. A narrativa do Ladrão que morria ao lado da Cruz de Jesus explica a diferença entre a operação das leis dos homens, em contraste com a Lei da Graça. Assim, a Lei perde seu poder de gerar "efeito" para a condenação diante de Deus por causa de Cristo e de Sua Cruz. Mas a Graça não suspende a Lei da Gravidade, e, nem tampouco faz com que tragédias não venham à casa de Jó. A Teologia Moral de Causa e Efeito é o que se percebe que havia na mente dos "amigos de Jó". Isto porque eles pegaram a exatidão das leis que regem o mundo físico, e, de posse delas, imaginaram que com as mesmas "causalidades" poderiam entender a existência de um homem na terra e sua relação com Deus, sendo que naquele caso a interpretação deles era que se Jó estava sofrendo e recebendo calamidade sobre calamidade, então, elas deveriam ser o "efeito" de algo cuja causa era pecado na deliberado na vida de Jó. Essa é a Teologia Moral de Causa e Efeito.

O texto de Gálatas que você mencionou, inicia com um "de Deus não se zomba". Assim, quem recebe o que semeia é aquele que zomba de Deus. Afinal, quem zombará de Deus e não receberá segundo as suas próprias obras? Quem zomba de Deus o faz por duas razões: ou porque 'brinca de transgredir' a sua própria consciência - semeando corrupção deliberada-; ou porque prefere a presunção da auto-justificação diante de Deus, e que vem da Moral e da Lei - num show de justiças próprias e vanglória-, e, portanto, coloca-se outra vez sob a Lei; pois, pela Lei o homem justifica a si próprio diante de Deus obedecendo ininterruptamente toda a Lei, o tempo todo, sem jamais transgredir em um único mandamento. Ora, isto é impossível aos humanos; posto que se ao menos um de nós pudesse assim realizar, "ele" seria aquele que deveria se oferecer para morrer por todos nós. Ora, a Lei é de causa e efeito; e, portanto, determina que a alma que viver em total obediência a ela, esse terá vida; e que a alma que a transgredir, essa morrerá. E, como todos pecaram e carecem da glória de Deus, pela Lei não serão justificados, pois o "pecado opera em seus membros". Por essa razão, todos os buscam se justificar mediante a Lei, se nela perseveram como caminho de auto-salvação, põem-se fora do âmbito justificador da Graça. Pois a Graça só justifica a quem crê na Suficiência da Cruz para suspender todas as leis espirituais e cobrir o homem com a virtude de Cristo. A Graça, portanto, é um Supremo Arbítrio de Deus contra as leis. Visto que em Jesus, Deus determinou que o sacrifício do Único Justo fosse o pagamento pela dívida de todos os transgressores. Assim, em Cristo, a Lei de Causa e Efeito é vencida pela Lei da Graça, onde a Causa é Cristo e Sua Cruz, e o efeito é a nossa justificação. Ora, o viver na Graça não gera concessão para a libertinagem e nem para a transgressão deliberada da Lei. Ao contrario, como a Graça só é efetiva mediante a fé, e como a fé só é eficaz se for fruto de um entendimento espiritual; desse modo, quem se põe sob a Graça, esse não terá prazer na transgressão, posto que se pôs sob a Lei do Amor. Sendo Graça um favor imerecido, ela gera na consciência um sentido de gratidão e amor para com Deus. E é justamente essa gratidão amorosa e esse amor grato, o poder que nos "constrange" a não vivermos deliberadamente em transgressão. Pois onde há a deliberação da transgressão, aí também não há amor ou Graça. Assim, a Graça quebra as leis de causa e efeito para a justificação, mas se torna a causa de que toda transgressão deliberada seja também aquilo que nos remete de volta à Lei. É possível viver na Graça e não pecar? Ora, é claro que não! O pecado está em operação em nós de modos muito sutis, e, também, piedosos. No entanto, é possível caminhar no crescimento da Consciência conforme o Evangelho, e, assim, desistir da deliberação do pecado, bem como crescer para deixar de lado os pecados que se tornam vícios da alma. Pecar-se-á, todavia, outros pecados, os quais, sob a Graça, não nos afastarão do beneficio do perdão, à menos que deliberadamente nos ponhamos num estado consciente de negação da fé, caindo da Graça, conforme Hebreus.


Rev. Caio Fábio



O amor prefere a luz das velas.
Talvez seja isso, tudo que desejamos
de uma pessoa amada: Que ela seja
luz suave que nos ajude
a suportar o terror da noite.
Sob a luz do amor que ilumina
modesta e pacientemente,
o escuro já não assusta
tanto.
Rubem Alves


Foi Jesus quem disse que temos o poder de ser luz para os outros.